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Quem pode ser um designer livre?

Antes de falar sobre design é importante esclarecer de qual design está se falando. Podemos entender o design como um processo (planejar, desenvolver, projetar), como o resultado desse processo (instruções, desenho, modelos, protótipos) ou como a solução (produto, serviço ou benefícios gerados por eles para as pessoas). O design livre abrange dois deles, o processo aberto para participações e os resultados do processo livres para consulta. A solução estar disponível ou não para usufruto e por qual preço depende dos participantes de cada projeto.

Mas o design livre só faz sentido se considerarmos um quarto entendimento. O design como “a capacidade humana de dar forma ao ambiente em que vivemos de maneira nunca antes vista na natureza, para atender às nossas necessidades e dar sentido à vida” – Heskett. Esta capacidade está na essência da existência da espécie humana, pois é uma da características que diferencia o ser humano dos outros seres vivos – junto com a linguagem – e tem sua manifestação identificada desde o tempo das sociedades humanas mais primitivas.

Desde os tempos antigos o ser humano projetou e construiu coisas para seu uso: ferramentas, armas e roupas. Quando as pessoas deixaram de ser nômades para serem agricultores e criadores de animais e estabeleceram-se em comunidades maiores e mais permanentes, alguns indivíduos demonstraram ser mais talentosos em projetar e fazer coisas específicas – seja pela herança genética, seja pelo desenvolvimento social e educacional. Esta especialização permitiu o avanço das habilidades para projeto e manufatura de casas, utensílios, móveis, roupas, jóias e outros produtos.

À medida que a sociedade ficava mais complexa, as atividades de construção das coisas separava-se das atividades de projetá-las e planejá-las. Estas novas atividades mereciam uma ponderação entre a concepção da ação a ser tomada e a forma de conduzi-la, bem como uma avaliação dos resultados da mesma. Neste momento, o design passou a se sobressair como atividade profissional e as especialidades de design que conhecemos hoje como diferentes profissões (por exemplo, engenheiro, arquiteto, alfaiate, designer gráfico, designer de produto etc.) gradualmente começaram a surgir.

Contudo, nas atividades mais simples e cotidianas, as pessoas continuam utilizando esta capacidade de agir de forma ativa e intencional, interferindo e transformando o seu entorno. Por exemplo, quando elas planejam as ações do dia, escolhem uma roupa, arrumam seus quartos, preparam a comida, resolvem problemas corriqueiros, entre outras. O design como capacidade também está presente em atividades um pouco mais complexas, como o empresário que organiza a empresa em um formato diferente, ou o analista de sistemas que cria um processo para reduzir o desvio de malas nos aeroportos, ou, ainda, o geneticista que desenvolve um novo tipo de maçã mais resistente às intempéries.

É esta capacidade que qualifica todas as pessoas, profissionais do design ou não, a serem potenciais participantes dos designs livres.

 
BAYNES, K. How children choose: children’s encounters with design. Loughborough: DD&T / Loughborough University, 1996.BONSIEPE, G. Design do material ao digital. Florianópolis: FIESC/IEL, 1997.

CROSS, N. Desenhante: Pensador do Desenho. Santa Maria: sCHDs, 2004.

FONTOURA, A. M. EdaDe: a educação de crianças e jovens através do design. 2002. 337 f. Tese (Doutorado em Engenahria) – Departamento de Engenahria de Produção e Sistema, Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 2002.

HESKETT, J. Design. São Paulo: Ática, 2008.

MAGALHÃES, Claudio Freitas de. Design estratégico: integração e ação de design industrial dentro das empresas. Rio de Janeiro: CNI/SENAI/CETIQT, 1997.

POTTER, N. What is a designer: things – places – messages. Londres: Hyphen Press, 2002.